Início da página Ir para a navegação principal Ir para as seções Ir para o conteúdo
Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

Assine os feeds

Divulgar conteúdo

Youtube e Flickr

Governo Federal

Escritório
Rio Av. Marechal Câmara, 160 - Sala 833
Castelo - Rio de Janeiro - RJ - Cep: 20020-080

Fábrica
Av. Gal. Euclydes de Oliveira Figueiredo, n.º 200
Brisamar - Itaguai - RJ - Cep: 23825-410

Crise é oportunidade para a Europa se modernizar

Versão para impressãoSend by email

Por trás do cenário econômico sombrio que envolve a Europa, a França vê uma oportunidade de renovação.

Mas, para chegar lá, a segunda maior potência econômica da zona do euro espera o apoio do Brasil no resgate das finanças europeias.

O recado será transmitido ao governo brasileiro pelo primeiro-ministro francês, François Fillon, que inicia amanhã visita ao Brasil, onde estará com o governador Geraldo Alckmin (SP) e a presidente Dilma Rousseff.

Em entrevista exclusiva à Folha, por email, Fillon cobrou dos emergentes que se posicionem contra países que violam direitos humanos.

Folha - A Europa está prestes a sofrer uma "década perdida", como afirma a chanceler alemã, Angela Merkel?

François Fillon - A Europa conserva vantagens reais na competição mundial: a dinâmica de um mercado de 500 milhões de consumidores, infraestrutura de alta qualidade, empresas de alta performance, polos de excelência científica, universitária e tecnológica, um alto nível de formação.

Nossos esforços como um todo visam recriar a confiança na Europa e preparar um retorno ao crescimento. Estou convencido de que nossas decisões mais recentes vão contribuir para isso.

O que o sr. responde àqueles que enxergam na crise atual o reflexo de uma Europa em declínio?

É normal que a globalização conduza a um movimento de recuperação dos países emergentes. Mas a Europa tem todas as cartas em mãos para controlar seu destino e lucrar com essa globalização. E não são favas contadas que a crise provoque seu declínio.

Pelo contrário: esta crise lhe oferece a oportunidade de abrir os olhos sobre o mundo à sua volta e sobre a verdadeira revolução que começou. Ela oferece a possibilidade de se questionar, de transformar a sociedade, de acentuar a produtividade de sua economia e de modernizar sua governança.

Vale lembrar que a Europa ainda é o maior mercado do mundo e a maior potência comercial do mundo; sua participação nas trocas comerciais (mais de 16%) se mantém nesse nível, apesar da crise e da intensidade da concorrência internacional.

Portanto, não cedamos à tentação -muito europeia, por sinal- de se comprazer com a ideia de que a Europa é um continente cujo fôlego está se esgotando.

Países emergentes, como o Brasil, podem ajudar?

A crise da Europa é, na realidade, uma crise de endividamento público excessivo de certos países europeus. A Europa, sob o incentivo do presidente Nicolas Sarkozy e da chanceler Angela Merkel, tomou medidas fortes, com os planos de resgate, medidas de disciplina orçamentária e a criação de barreiras "corta-fogo" para evitar o contágio.

O Brasil deve conservar sua confiança na zona do euro. Os resultados do Conselho Europeu de 9 de dezembro demonstram nossa forte determinação de refundar a zona do euro sob uma governança ao mesmo tempo mais rigorosa e mais solidária.

É sobre essa base que esperamos do Brasil que ele tome parte de toda iniciativa internacional que vise reforçar os mecanismos de gestão da crise em parceria com o FMI (Fundo Monetário Internacional). Uma possibilidade poderia ser um aumento dos recursos do FMI por empréstimos bilaterais.

Diante da baixa popularidade de Sarkozy e da dianteira da oposição nas pesquisas para o pleito de 2012, o governo se arrepende de ter tomado decisões impopulares?

Não, a aproximação das eleições presidenciais não está provocando o questionamento da estratégia reformadora do presidente da República e do governo.

Por duas razões. A primeira é que a crise da dívida europeia nos obriga a respeitar nossos objetivos de redução dos deficits, sob pena de ver a credibilidade financeira da França, que permanece forte, se enfraquecer.

A segunda é que, diante da crise, a coragem, a coerência e a experiência de Nicolas Sarkozy serão um diferencial diante de seus oponentes, que não entenderam a dimensão dos desafios atuais.

Por que a França se envolveu tão rapidamente ao lado dos rebeldes na Líbia, após hesitar na Tunísia e no Egito?

Na Líbia, [o ex-ditador Muammar] Gaddafi tinha prometido à sua população um banho de sangue. O presidente Sarkozy indicou claramente as condições que permitiam uma intervenção: um pedido do povo líbio e da Liga Árabe e uma autorização da ONU. Foi exatamente o que ocorreu. No Egito e na Tunísia, a situação era diferente porque os dirigentes optaram por partir, enquanto Gaddafi resistiu até o fim.

A França está preocupada com o avanço islâmico no rastro da Primavera Árabe?

Queremos confiar nesses novos regimes, desde que seus dirigentes rejeitem o extremismo sob todas suas formas e se comprometam a respeitar as liberdades fundamentais. Estaremos atentos a esses pontos, mas não queremos julgar países que passaram por tantos anos de ditadura e agora tentam o caminho da democracia.

O ministro da Defesa da França criticou recentemente os países emergentes, em particular o Brasil, dizendo que "está na hora de eles se tornarem emergentes também em matéria de direitos humanos". O senhor concorda?

É preciso desconfiar de declarações tiradas de contexto. A palavra "criticou" não me parece apropriada. Trata-se mais de um apelo aos grandes países emergentes que reivindicam com razão um papel mais importante na governança mundial.

O Brasil deve ter seu lugar justo no sistema internacional, e a França milita nesse sentido há muito tempo. Isso significa mais responsabilidades, e, especialmente, uma obrigação de resultados para resolver crises internacionais e salvar vidas.

Não se trata, evidentemente, do respeito aos direitos humanos no Brasil, mas da condenação internacional de países que violam ou violaram esses direitos. Notamos muito positivamente o voto recente do Brasil em favor de uma resolução da Assembleia Geral da ONU condenando as atrocidades do regime sírio.

As divergências entre a França e o Brasil em relação a Líbia, Irã e Síria ameaçam o apoio de Paris à candidatura brasileira a um assento permanente no Conselho de Segurança?

A posição da França não mudou. Somos e continuamos mais que nunca partidários fervorosos da atribuição ao Brasil de uma vaga permanente no Conselho de Segurança. Porque é uma evidência e é o sentido da história. O presidente Sarkozy com frequência lembra publicamente nosso apoio à candidatura do Brasil. E é o que tenho a intenção de reafirmar sem a menor ambiguidade em minha visita ao Brasil.

No caso da renovação dos caças usados pelo Brasil, como a França responderá ao anúncio dos EUA prometendo que também farão uma transferência de tecnologia sensível?

Nossa parceria estratégica com o Brasil comporta uma parte militar densa. Esta abrange contratos de armamento, sem dúvida, mas também uma cooperação mais e mais estreita com transferências de tecnologia.

Estamos trabalhando em particular em dois programas ambiciosos de construção de submarinos e helicópteros que ultrapassam o simples fornecimento de armamentos e permitirão ao Brasil atravessar um patamar industrial e tecnológico.

Nosso melhor argumento é a qualidade das transferências que estamos realizando. Somos fiéis aos nossos compromissos. No mesmo espírito, propusemos o avião Rafale, um projeto militar e industrial. Estamos confiantes, porque nossa oferta é a melhor possível.